peças especiais


GULA Remade in Portugal "in-utilitas", exposição, Fundação EDP, Porto, 2015

prata 925, banho de ouro, limalha de prata, resina, pérolas de água doce e fio de nylon

Quando a fome é gula

Se a fome é uma necessidade primordial, o prazer provocado pelo açúcar é um luxo só explicado pelo excesso da gula.

A joalharia está no limite entre o objecto útil e a aparente inutilidade da arte e nesse contexto, a joia será o açúcar que colocamos sobre a roupa que vestimos para dar-lhe mais sabor - para dotar o útil do luxo da beleza.

Enquanto a joia de prata é concretizada, o lixo acumula-se em forma de limalha - um pó prateado que lembra areia ou açúcar refinado. Se for recolhida, pode ser transformada de novo em prata possível de trabalhar, numa espécie de reciclagem circular. Mas porque não integrar a limalha na joia? Como se o lixo a que o luxo dá origem se tornasse, ele próprio, protagonista.

A GULA, celebrando o prazer de criar um objecto belo que pode ser usado, trata a limalha de prata como se fosse açúcar, integrando na mesma peça formas utilitárias reconhecíveis e transformando-as em elementos simbólicos que, descontextualizados e fora de escala, exaltam a sua inutilidade prática.

Quando usada, a GULA adverte para os perigos de cedermos ao prazer puro e simples, tornando o instrumento para alcançá-lo inacessível - porque se a fome é o sintoma de uma necessidade, a gula é, talvez, um prazer tão necessário como a beleza que anseia ser contemplada.

A GULA é um colar composto por dois pendentes inspirados num bolo sobre um naperon e numa colher, em que o açúcar é representado pelo reaproveitamento de limalha de prata.

A palavra gula deriva do latim gula, que significa esófago, garganta, goela.

Curiosamente, é também a palavra usada para açúcar, em indonésio.

ANOTHER VISION Jewellery Meets Illustration, exposição, Ó Galeria, Porto, 2015

prata 925 com banho de ouro, miniatura de plástico pintada com esmalte, corrente em metal

Existiu um óbvio cruzamento entre a ilustração que me foi atribuída e a linguagem do meu próprio trabalho. Não estou habituada a utilizar o trabalho de outra pessoa como ponto de partida para criar uma peça minha, mas quando isso acontece, é inevitável olharmos para o trabalho do outro à luz do nosso próprio trabalho – acabamos por ver o que queremos ver.

Encarei o utilizador da peça de joalharia enquanto personagem principal do seu próprio quadro. Enquanto tal, decidi pegar no monóculo que aparece na ilustração Vision e simplificá-lo um pouco mais, desconstruindo-o em circunferências de diferentes diâmetros (com uma certa relação com a minha Colecção Orbital) – como se o objecto tivesse caído ao chão e, desmaterializado, fosse agora montado enquanto peça abstracta decorativa.

Outro dos elementos que me chamou a atenção na ilustração foi a silhueta da personagem mais pequena que parece estar em perigo – talvez influenciada pela minha formação, lembrei-me das miniaturas que se usam nas maquetas arquitectónicas e não resisti a introduzir uma na peça – também esta personagem está meia perdida e tenta de algum modo encontrar o seu lugar dentro de uma estrutura cuja dimensão desproporcional parece fugir ao seu controlo. No fundo, acaba por ser o elemento de ligação entre uma peça de joalharia que podia existir por si só e a ilustração de Maria Herreros.

READ ME IN THE MIRROR Jewelry and Cinema, exposição, Tincal lab, Porto, 2016

prata 925

Alguns filmes chamam a nossa atenção desde o início, outros aguardam o grande final para nos surpreender. O tempo passa e quando olhamos para trás, às vezes é apenas um momento ou uma frase que permanece.
“Read me in the mirror” é uma coleção portátil de frases que permanecem na nossa memória e agora podem ser transportadas para o nosso corpo, gravadas no que parece ser uma tira de filme.
Um significado diferente para cada um de nós, um reflexo deles e de nós mesmos.

READ ME IN THE MIRROR edição poesia, 2019 (publicada no livro "New Bracelets", Nicolas Estrada, Promopress)

prata 925, tira de papel com poema

Uma colecção limitada de peças inspiradas pela poesia - como se fosse uma tira de papel enrolada, cada pulseira apresenta um excerto de um texto, de um autor português, marcado manualmente pelo interior e por isso voltado para o utilizador, mas visível pelo exterior através do relevo e legível quando em frente a um espelho. Cada pulseira é acompanhada, simbolicamente, de uma tira de papel com o texto completo.

HORIZON LINE peça exclusiva para o MAAT, Lisboa, 2019

prata 925

Inspirado na arquitectura das linhas, dos níveis de espaços, nas direções dos movimentos, que se sobrepõem e intersectam num fluido contínuo, o anel de Ana Pina reflecte a geometria presente nos desenhos da fachada do museu, mas também uma visão mais poética, a do lugar, pousando na mão com a ergonomia com que o edifício assenta na margem e acompanha a ondulação do rio.

ABSENCE Prezentacje 2019 - Prostheseuses, competição, Varsóvia, 2019

prata 925, fio de seda

A ausência remete ao mesmo tempo para o vazio e para a presença que o preencheu.

Um órgão, um membro, um corpo, uma memória.

Tal como uma prótese feita à medida do seu dono, assim esta peça foi feita - e neste caso em particular serve à mão que a criou, para depois ser entregue, num ciclo simbólico de ganho e perda.

Mas uma prótese feita para uma mão saudável será em si mesma uma contradição: um elemento destinado a ser sentido como estranho, que em vez de facilitar, impede o movimento.

Um elemento destinado a destacar-se, como uma peça de joalharia - e como uma peça de joalharia, este pendente celebra o renascimento: um elemento desadequado que só serve ao próprio torna-se um adorno para outra pessoa, como símbolo da nossa infinita capacidade de renascer, melhorar e transformar as desvantagens em triunfos.

INVISIBLE Mask, exposição virtual, Galeria Alice Floriano, Porto Alegre, 2020

folha de acetato

Como se fosse invisível.

À procura de mim própria sob esta máscara diária. A proteger-nos um do outro? Ou a proteger-me do mundo exterior? Está sempre lá, mesmo que não a vejamos, a mudar com a luz, os movimentos, os estados de espírito. Talvez eu seja invisível se não conseguir ver-te. Talvez eu não consiga alcançar-te se não puderes ver-me, mas a distância é sempre a melhor defesa.

A brincar com conceitos de Máscara num tempo em que o seu uso é necessário por razões de saúde.

Numa altura em que o acesso à oficina é limitado, podemos sempre recorrer aos elementos mais simples para criar: as nossas mãos, uma camada quase invisível, uma fonte de inspiração inesgotável - como a geometria.

Lembrando um jogo de infância, em que dobrar uma folha de papel a meio e recortar formas com a tesoura dava origem a uma composição simétrica, que, longe de ser previsível, poderia maravilhar-nos com o seu surpreendente resultado.

EROS Oceans of Love, exposição, Place of Display, Bucareste, 2020

prata 925, óxido, embalagem de preservativo (plástico)

Um jogo entre a contradição e complementaridade de conceitos como forma e função, aparência e significado, interior e exterior, memória e presença, contorno e vazio, humano e artificial.

A peça Eros alude à relação improvável entre o corpo físico e a abstracção da geometria, celebrando um dos diferentes tipos de amor identificados pelos sábios Gregos antigos. Eros relaciona-se com o amor sexual, mas também, como definido por Platão, com a passagem do carnal ao ideal: contemplação como um acto de admiração da beleza em si mesma.

Que a joalharia seja beleza usável com significado.